Endometrioma ovariano e Fertilização in Vitro: quando operar, riscos, impacto na reserva ovariana e como a FIV contorna o problema
Postado em: 05/12/2025

O endometrioma — o “cisto de chocolate” no ovário — é uma das formas mais comuns de endometriose. Ele pode afetar a qualidade e a quantidade dos óvulos, mas isso não significa que a gravidez seja impossível.
Com avaliação individualizada, muitas pacientes engravidam por Fertilização in Vitro (FIV) com ótimos resultados.
A seguir, você encontra um guia claro e atualizado para decidir, junto ao seu médico, entre operar ou seguir direto para a FIV. Tenha uma boa leitura!
O que é o endometrioma e como ele impacta a fertilidade?
O endometrioma é um cisto ovariano formado por tecido semelhante ao endométrio. Ele é frequente em mulheres com endometriose — estimativas apontam que 17% a 44% das pacientes com endometriose apresentam endometriomas.
A ultrassonografia transvaginal identifica a maioria dos casos, com taxa de detecção relatada de até 90% em exames de rotina, quando realizada por profissionais experientes.
Como esse cisto pode prejudicar a mulher?
Há dois caminhos principais:
- Ambiente inflamatório local (com ferro livre e citocinas) capaz de comprometer o microambiente do folículo e a competência do óvulo;
- Efeito mecânico sobre o córtex ovariano, reduzindo o número de folículos disponíveis (reserva ovariana). Nos marcadores de reserva ovariana, podem ocorrer reduções de AMH e Contagem de folículos antrais (CFA) em pacientes com endometrioma — e cirurgias repetidas ampliam esse impacto.
FIV em mulheres com endometrioma: o que mostram os estudos?
Uma revisão sistemática e uma meta-análise em mulheres não operadas previamente mostrou que, embora a quantidade de óvulos coletados e de oócitos MII seja menor em quem tem endometrioma, as taxas de gestação clínica, implantação e nascimento vivo foram semelhantes às de mulheres sem a doença. Em outras palavras: a presença do cisto pode reduzir o número de óvulos, mas não necessariamente reduz os resultados finais da FIV.
Além disso, em séries de punção folicular com endometrioma, sob profilaxia antibiótica, não foram observados abscessos pélvicos; e o risco de contaminação do líquido folicular ou infecção é muito baixo (faixas relatadas de 2,8–6,1% e 0–1,9%, respectivamente).
Estratégias de “freeze-all” (congelar todos os embriões e transferir em ciclo posterior) podem aumentar taxas de gestação em mulheres com endometriose, ajudando a contornar possíveis alterações de receptividade endometrial no ciclo fresco.
Saiba mais: veja nosso guia para aumentar as chances de sucesso na FIV.
Cirurgia antes da FIV: quando faz sentido (e quando não faz)?
A decisão de operar o endometrioma antes da FIV deve ser cautelosa. Segundo parecer científico de referência internacional, fazer cistectomia apenas por tamanho (ex.: >3–4 cm) não melhora taxa de nascimento vivo na FIV e pode reduzir a reserva ovariana, principalmente se houverem cirurgias repetidas ou doença bilateral.
A cirurgia pode ser considerada quando há dor importante refratária, há suspeita de malignidade na imagem ou quando o cisto impede o acesso seguro aos folículos durante a punção.
Em pacientes com baixa reserva, doença bilateral ou histórico de cirurgia prévia, muitas vezes é mais prudente ir direto à FIV para evitar queda adicional da reserva e não atrasar o tratamento.
Já em mulheres muito sintomáticas, com reserva preservada e cisto unilateral grande, a cirurgia pode ser discutida para alívio de sintomas e melhor acesso folicular — sempre com aconselhamento sobre riscos e benefícios.
Por isso, destaca-se que a cirurgia pode diminuir consideravelmente a reserva ovariana e que, em muitos casos, a FIV não é prejudicada pela presença do cisto — reforçando a importância da decisão personalizada.
Como personalizamos a estratégia no consultório?
Na prática, a melhor conduta nasce de uma integração de fatores:
- Idade e reserva ovariana (AMH, AFC);
- Tamanho, número, lateralidade (uni/bilateral) e proximidade dos folículos em relação ao cisto;
- Sintomas de dor e impacto na qualidade de vida;
- Histórico de cirurgias ovarianas;
- Tempo de infertilidade e planejamento reprodutivo (ex.: desejo de mais filhos no futuro);
- Viabilidade de punção folicular segura e de estratégias de laboratório (ICSI, freeze-all).
Em muitas situações, mapear a endometriose com imagem especializada ajuda a planejar a punção e a transferência embrionária com segurança.
Saiba mais: veja o nosso serviço de Mapeamento de Endometriose.
Perguntas frequentes (FAQ)
É possível coletar óvulos com endometrioma?
Sim. Em centros experientes, com preparo adequado (incluindo antibiótico profilático quando indicado), o risco de infecção ou contaminação do folículo é baixo, e os resultados de FIV são comparáveis aos de mulheres sem endometrioma.
O endometrioma sempre causa infertilidade?
Não. Algumas pacientes engravidam naturalmente; porém, a presença do cisto se associa a pior resposta ovariana e pode reduzir a quantidade de óvulos disponíveis, especialmente em casos bilaterais ou após cirurgias repetidas. Por isso, a avaliação individual é fundamental.
Tamanho importa?
O tamanho isolado não deve determinar a cirurgia antes da FIV: retirar cistos >3 cm não aumentou nascimentos vivos e ainda pode diminuir a reserva. Indicações cirúrgicas valem quando há dor, suspeita de câncer ou dificuldade de acesso na punção.
Conclusão: decisão compartilhada e foco no projeto de gravidez
A FIV com endometrioma: costuma oferecer boas taxas de gestação e nascimento vivo, apesar de menor número de óvulos coletados. A cirurgia seletiva pode ser indicada quando há dor, suspeita de malignidade ou acesso.
É importante evitar cirurgias desnecessárias, sobretudo em quem já tem baixa reserva ovariana. Vale discutir o planejamento reprodutivo para quem não pretende engravidar agora, considerando a preservação da fertilidade (congelamento de óvulos/embriões).
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Referências bibliográficas:
Meta-análise sobre impacto do endometrioma na FIV: redução no número de óvulos, mas gestação e nascimento vivo semelhantes às de controles.
Dra. Aline Borges
Ginecologista especialista em Reprodução Humana



